Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Da forma como leio o mundo

Da forma como leio o mundo

28
Set18

Sou filha de ninguém e irmã do vazio

Bárbara

Assim, me sinto hoje, ontem e amanhã. Gostavade conseguir colocar em palavras este vazio escondido por trás de sorrisos e de muitas horas de trabalho. No meio da minha confusão de vida, tiro algum tempo para ir passear com a minha mãe e venho de lá completamente vazia, sentindo-me filha de ninguém. Nunca me pergunta como estou, ou se algum dia me pergunta, não me escuta, não valoriza, apenas me fala de como a vida dela é difícil e fica a remoer o que lhe fez um e outro, descreve a vida difícil das minhas irmãs e eu sou invisível. Hoje, desabafei que me sinto doente e cansada e isso bastou para que começasse a manifestar sintomas de doença. Aliado ao facto de lhe ter pedido para não me pedir sempre para comprar raspadinhas, pois estou com ela quatro vezes por semana, somando ao que pedimos no café, eu não tenho dinheiro para tanto.Observei como o rosto se transformou, há uns anos atrás, quando não se sentia tão vulnerável, teria sido o suficiente para ter arrastado a cadeira, gritado, partido a loiça e saído, deixando-me sozinha. Por isso, o medo constante da forma de interagir com ela, ou até mesmo de estar com ela. Como será ter um mãe que percebe, antes mesmo de eu falar,que não me assusta com reações, que não repete vezes e vezes que me pagou um curso? Como será chegar ao final do dia, sem sentir que não sou ninguém, que não valho nada e não necessitar de alimentar os afeetos com açúcar? E quando tento encontrar algo junto das minhas irmãs, encontro mais reações assim, fechadas, egoístas, com narrações a terceiros de como eu sou parecida com a minha mãe e por isso, me afastei das três. Num desespero tento definir quem liga à minha mãe em que dia, quem aparece em que dia, mas, apenas me respondem, bem lá de cima, do pedestal onde se sentem, que ainda não têm o horário laboral definido. E vou pedindo, pedindo, pedindo e são ausentes nas mensagens. Unem-se, distanciam-se, combinam entre si, e tratam-me como se fosse louca,desrespeitando a minhas 12 horas de trabalho, desvalorizando as minhas condições precárias e bem fragéis. A mais velha vai por ai foram narrando uma história que inventou a si própria sobre o facto de sermos distantes, a do meio nem me escuta, nem me ouve. Quando lhes peço para ir viver para casa da minha mãe, considerando a carência de habitação, responde-me que o filho está a fazer mestrado e que a minha mãe tinha dito que se arrendassem a casa, seria para ele. Mas, claro que se eu estivesse a passar necessidades, concordaria. No seu mundinho de alguém que sempre trabalhou para e só para o estado, com as sua férias, os seus fins de semana, as suas horas definidas de trabalho, os seus filhos, os seus relacionamentos, não fazem ideia de como é a minha vida e só volto a descrever quando me distrair, pois há pouco menos de um ano, a do meio, disse-me que estava farta de me ouvir falar da minha vida, que ela também tinha problemas. E quando lhe perguntei se queria falar de alguns problemas, respondeu que não tinha no momento. Prjovavelmente, passarei outro natal sozinha, pois sou filha de ninguém e irmã do vazio. Quem me dera ter nascido na minha família e na vida certa.

6 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D