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Da forma como leio o mundo

Da forma como leio o mundo

01
Fev18

Para hoje, ou já amanhã, a escolha da morte de quem sou

Bárbara

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Estava a ouvir uma mãe a falar ao telemóvel com a sua filha adolescente, isso despertou em mim um conjunto de questões filosóficas e saudosas sobre os afetos e a sua ausência em cada dia em que vivo. A forma como deitavam conversa fora, num terceiro telefonema, num prazo curto, gastando o tempo, simplesmente, para mostrarem que estavam lá. O estômago começou a embrulhar-se, o peito esmagou num nó da garganta e senti-me ainda mais vazia, mais do que sou. Resultou num confronto de ninguém que tenho, apenas ninguém. Acordo sem ninguém, vivo sem ninguém e adormeço numa cama, apenas preenchida por um pequeno corpo de calor, que é o meu cão. Ser uma "sem família" é o que me calha, a chegar aos 44 anos. Todos os dias, espero ansiosamente pela morte, repito essa frase inumeras vezes, na expetativa que tudo acabe. Não encaixo neste mundo, nunca me senti parte dele. Um mundo de faz de conta, onde temos que fingir que ninguém é torturado, ninguém morre de fome... Sinto-me cansada de frases positivistas, de falsos messias, de lições de moral com o rei na barriga, apenas quero a morte. Doce morte e o que quer que se encontre do lado de lá. Conto os dias, com traços na parede, peço com fé, que seja o meu último inspirar. Já não suporto as pessoas, as suas vozes, os seus caprichos, os seus carpires. Já não suporto os dias e estou cansada de desempenhar este papel do nada que sou. Quando nos sentimos nada, quando os dias nada são, quando não tenho mesmo ninguém com quem partilhar o tudo e o nada que sou, apenas me quero no desaparecimento. Sem grandes escândalos, sem grandes alertas, como numa queda de pétalas de uma flor campestre, em que a própria estaçao explica a sua morte. Como se num amanhã, muito breve, justificasse esta ida e não me interessa mais nada... Para hoje, ou já amanhã, a escolha da morte de quem sou.

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