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Da forma como leio o mundo

Da forma como leio o mundo

05
Fev18

Fazer de conta que estou viva

Bárbara

Faço de conta que vivo,mas sinto-me mesmo morta por dentro. Mais um dia de trabalho, mais um fim de semana, mais uma segunda feira. Até o respirar me faz doer. Nada me prende aqui, nada e já não aguento ouvir as pessoas com quem trabalho, presas no capricho de tudo terem e sempre num carpir constante. Hoje, falei ao telemóvel com a minha mãe, ou melhor chorei ao telemóvel. Estou tão magoada com ela e com as minhas irmãs. Foi a segunda vez que falei com ela, desde que saiu de minha casa. Disse-me que ia para um lar e que as minhas irmãs iam arrendar a casa dela. Só lhe perguntei se era isso que queria. A minha mãe tem tanta dificuldade em se dar com os outros. Com as minhas irmãs nunca mais falei, nem mesmo no natal. Brevemente, vou fazer 44 anos e não me acredito que a minha vida melhore.Já não aguento escutar conselhos de pessoas, que nada sabem, como por exemplo, a minha prima, que me fala da aceitação que temos que fazer na vida e que sozinhos estamos todos. A minha prima que regressa a casa da mãe do pai, das irmãs, que tem o coração cheio de família. Só quem passou o natal sozinho tem o direito de me falar em aceitação. Só quem passou todos os sábados à noite sozinhos, poderá falar de aceitar o que quer que seja. Brevemente faço anos, mais um aniversário sozinha, a recordar-me em que me transformei, um desempenho de um papel, que trabalha dozes horas para tirar pouco mais do que o salário mínimo.  Hoje, foi muito difícil sair da cama, mais difícil se torna o passar do dia e o fingir que vivo em harmonia e sucesso. Vivo em paz comigo, isso sim. Tenho a certeza que faço sempre o meu melhor, mas, já duvidei, basta escutar a sociedade, perceber os dedos apontados e as tentativas de me responsabilizar por tudo. A sociedade perde-se num fingir que tudo está bem vs um carpir do maior drama. Sim, sei que existem vidas piores, em maior sofrimento, estou bem atenta a estas. Lamento que o mundo seja deste modo, oco, vazio, ignorante, imbecil. Nem sei mais o que escrevo, só queria deixar de sentir. Não consigo chegar a ninguém e ninguém repara que eu existo. Sou um instrumento, algo que usam para obter um maior bem estar, mas não existo enquanto pessoa. Consegui estar quatro dias sem comer porcaria e depois, mesmo sem qualquer apetite, obriguei-me a comer. Já percebi que já nem como como compensação, mas como punição. Faço de mim gorda, pois não mereço ser de um outro modo. Estranha esta cabeça imbecil. A morte para mim!

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