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Da forma como leio o mundo

Da forma como leio o mundo

27
Jan20

Comida para cães

Bárbara

(A cena descrita a seguir é completamente imaginada e qualquer semelhança com a realidade é pura ficção. As personagens e as respetivas falas são descritas com toda a imparcialidade, ajustadas ao valor da alma)
2020, algures em Portugal:
- Estava mesmo à sua espera. Quem é que a mandou colocar comida para os cães na minha casa? – questiona a personagem da alma triste, muito triste, pois ainda não percebeu o que realmente é importante na vida.
- Boa noite. Na sua casa? Minha senhora, isto é um passeio.
-Sim, mas junto ao passeio encontra-se o meu jardim, que somos nós que pagamos – diz a senhora de alma triste, enquanto aponta para uma curvinha de espaço, que companha o contorno do passeio e se encontra coberto de pedras.
- Minha querida, sempre que coloco, limpo sempre o que ficou sujo, já deve ter observado. Inclusive limpo todo o lixo que se encontra no canto, nomeadamente as beatas, os plásticos que lá se encontram diariamente. Quer ver?
- Não, não quero. Sabia que a sua comida traz os cães para aqui e sujam este jardim todo e desvalorizam o prédio. Até as vendas da loja estão a baixar.
(Num episódio seguinte foram questionadas as pessoas da loja, que louvaram o ato e referiram nem terem dado conta).
-Minha querida, não lhe causa tristeza observar a quantidade de cães famintos, com frio na rua?
- Mas, então leve-os para sua casa, alimente-os em sua casa. Por isso eu tenho um, dois, doze, muitos (falha várias vezes o número de cães). Porque eu também gosto muito de animais e se pudesse salvava-os a todos, mas não posso e quero o meu jardim sem porcaria. Eu sei quem a senhora é, onde mora, onde trabalha, que número calça e o que come ao domingo.
- Sabe, o mundo é de todos e se todos agissem o mundo seria um local muito melhor para todos. Os cães são tanto problema meu como de qualquer outra pessoa, eu apenas ajo. E a senhora não sabe porque não os levo para casa. Mas, vamos combinar e eu venho cá ajudá-la a limpar o jardim e a recolher estres três cocós que estou a ver. No entanto, também tenho que acrescentar, que o facto de ter aqui estes contentores de lixo faz com que os cães, em sofrimento, parem por aqui na busca de algo que lhes pare esse mesmo sofrimento. Mas, sabe o que me está a dizer apenas me revela quem a senhora é e o que valoriza no mundo. Tudo o que a senhora diz mostra aquilo que não quero ser.
-Eu sou boa pessoa, ajudo sempre que posso. Por que não põe em sua casa, ou daquele lado na rua, ou na lua?- e à medida que falava a sua beleza ia-se alterando, sendo substituída pelo vazio da sua alma e era assustador o que se via.
-Acredito que sim, até tem palavras disso, cara disso, só não tem comportamentos. Mas, isso é uma escolha de cada um. Sabe sempre bem aparecer numa capa de uma revista qualquer a anunciar o quanto somos boas pessoas, mas sê-lo realmente é que exige outra coisa. Ainda é muito nova e acredito mesmo que o céu e o inferno são na terra, como consequências dos nossos atos e a vida acaba por nos ensinar o que realmente é importante de uma forma ou de outra. A arrogância acaba por desaparecer no meio dos estalos que a vida vai dando.
- Sabe que por colocar aqui a comida, os cães vêm para aqui às quatro da madrugada e acordam o prédio todo, até um cão que está ali naquele prédio começa a ladrar e não nos deixa dormir. – Enquanto diz isto, o cão no prédio ao lado começa a ladrar, como fazem todos os cães e se ele miasse eu ia apanhar cá um susto.
- Repare o cão está a ladrar e só cá estamos nós e os carros da rua. E se observar as rotinas dos cães de rua, cedo procuram abrigo para não gelarem e quando o sol levanta procuram comida. Mas, pronto, como a senhora é boa pessoa, vou pedir que me dê uma sugestão onde colocar a comida, de forma a remediar uma situação, que, efetivamente, não é responsabilidade minha é de todos.
- Pois tem que falar com o município, eles é que têm a responsabilidade. Chame o canil, faça uma campanha. Coloque para aqueles lados – acrescenta, enquanto aponta uma zona de nada, perto do lado oposto do mundo.
- Quanto ao canil, como deve ser do seu conhecimento está mais do que lotado e não consegue dar resposta a tantos pedidos urgentes de cães em sofrimento. Quanto à campanha até ia sugerir que a fizéssemos as duas. Uma vez que, a senhora é boa pessoa e até quer ajudar, pois também se preocupa como eu. E isto, porque principalmente, o mundo é de todos, mas alguns preocupam-se com pedras, outros não conseguem fazer de conta e virar o rosto ao que se passa de mal no mundo. Não consigo mesmo virar a cara, lamento por mexer com o seu mundo de vitrine e de fogo de artificio.

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