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Da forma como leio o mundo

Da forma como leio o mundo

06
Fev18

A minha mãe hoje ligou, outra vez...

Bárbara

A minha mãe hoje ligou, outra vez... Sinto o coração tão apertado, por tudo. Pela ausência da mãe que deveria ter, pela forma manipuladora com que sempre se apresentou, por ser orfã dos afetos.Ontem, ligou-me e desmachou a minha alma, com saudade, com zanga, com sentido de não pertença. Apenas queria que me dissesse que errou, que me magoou, que me cuidasse, que se mostrasse mãe, que me apagasse a confusão de memórias, onde me sinto sempre injusta... Ontem, chorei e hoje, hoje, ligou novamente. Desta vez não atendei, ouvi, apenas a mensagem. Sai aquela voz debilitada que não lhe pertence, mas que usa, desde que saiu do hospital. Com a voz trémula pediu que lhe levasse dois pijamas, que depois me pagava. Senti vontade de correr para ela e levar tudo o que tenho, mas não posso, pois é isso que me faz sentir, um recurso. Coloquei toda a minha vida e casa à disposição e, simplesmente saiu a correr e a gritar socorro. Senti um desespero, presa no meu trabalho, sem poder sair e tive que pedir ajuda. As minhas irmãs não me ligaram, ignoraram as minhas mensagens e colocaram-na num hospital, cujo prazo vai terminar. Aquele benefício do seguro de saúde não dura para sempre. Sei que se levar uns pijamas, tudo recomeça e esta dor que trago no peito volta, com a manipulaçao, o uso, o abuso, por parte dela e da minha irmã mais velha. Queria tanto ter uma família diferente, pessoas que se amam e se protegem, reunidas numa mesa. Mas, resta apenas perceções egocêntricas, que batem na razão e vivem num mundo próprio. Enlouquecem-me, fazem-me perder a razão, a identidade e sumo em quem elas são, quando convivo com elas. As três acabam por ser parecidas e eu acabo por não ser ninguém. De uma coisa tenho a certeza, não quero mais sentir-me ninguém, humilhada, pequena, ferida e desaparecida numa falta de afetos, que me esfrega quem sou e me faz acreditar em quem não sou.No fundo, só quero morrer. 

Hoje, tive que dizer a uma pessoa com quem trabalho para parar de carpir sempre que eu tenho um problema. Parece uma competição de drama. Expliquei que quero ser feliz, quero ser magra, ter família, estabilidade económica. Não gosto deste vazio. Mas, apesar dela ser assim, revela-se a pessoa mais humilde que conheço e acabou por dizer que tenho razão. Estou tão pouco habituada que as pessoas mais próximas me deem razão, que receei as consequências.

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