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Da forma como leio o mundo

Da forma como leio o mundo

15
Fev18

De mim para ti...

Bárbara

De mim para ti,

Não fales sobre ti, nãao fales sobre os outros, não opines, não te rias demasiado alto, não fiques séria, não fales alto, não fales baixo. Para de viver, não sejas gente.

06
Fev18

A minha mãe hoje ligou, outra vez...

Bárbara

A minha mãe hoje ligou, outra vez... Sinto o coração tão apertado, por tudo. Pela ausência da mãe que deveria ter, pela forma manipuladora com que sempre se apresentou, por ser orfã dos afetos.Ontem, ligou-me e desmachou a minha alma, com saudade, com zanga, com sentido de não pertença. Apenas queria que me dissesse que errou, que me magoou, que me cuidasse, que se mostrasse mãe, que me apagasse a confusão de memórias, onde me sinto sempre injusta... Ontem, chorei e hoje, hoje, ligou novamente. Desta vez não atendei, ouvi, apenas a mensagem. Sai aquela voz debilitada que não lhe pertence, mas que usa, desde que saiu do hospital. Com a voz trémula pediu que lhe levasse dois pijamas, que depois me pagava. Senti vontade de correr para ela e levar tudo o que tenho, mas não posso, pois é isso que me faz sentir, um recurso. Coloquei toda a minha vida e casa à disposição e, simplesmente saiu a correr e a gritar socorro. Senti um desespero, presa no meu trabalho, sem poder sair e tive que pedir ajuda. As minhas irmãs não me ligaram, ignoraram as minhas mensagens e colocaram-na num hospital, cujo prazo vai terminar. Aquele benefício do seguro de saúde não dura para sempre. Sei que se levar uns pijamas, tudo recomeça e esta dor que trago no peito volta, com a manipulaçao, o uso, o abuso, por parte dela e da minha irmã mais velha. Queria tanto ter uma família diferente, pessoas que se amam e se protegem, reunidas numa mesa. Mas, resta apenas perceções egocêntricas, que batem na razão e vivem num mundo próprio. Enlouquecem-me, fazem-me perder a razão, a identidade e sumo em quem elas são, quando convivo com elas. As três acabam por ser parecidas e eu acabo por não ser ninguém. De uma coisa tenho a certeza, não quero mais sentir-me ninguém, humilhada, pequena, ferida e desaparecida numa falta de afetos, que me esfrega quem sou e me faz acreditar em quem não sou.No fundo, só quero morrer. 

Hoje, tive que dizer a uma pessoa com quem trabalho para parar de carpir sempre que eu tenho um problema. Parece uma competição de drama. Expliquei que quero ser feliz, quero ser magra, ter família, estabilidade económica. Não gosto deste vazio. Mas, apesar dela ser assim, revela-se a pessoa mais humilde que conheço e acabou por dizer que tenho razão. Estou tão pouco habituada que as pessoas mais próximas me deem razão, que receei as consequências.

05
Fev18

Fazer de conta que estou viva

Bárbara

Faço de conta que vivo,mas sinto-me mesmo morta por dentro. Mais um dia de trabalho, mais um fim de semana, mais uma segunda feira. Até o respirar me faz doer. Nada me prende aqui, nada e já não aguento ouvir as pessoas com quem trabalho, presas no capricho de tudo terem e sempre num carpir constante. Hoje, falei ao telemóvel com a minha mãe, ou melhor chorei ao telemóvel. Estou tão magoada com ela e com as minhas irmãs. Foi a segunda vez que falei com ela, desde que saiu de minha casa. Disse-me que ia para um lar e que as minhas irmãs iam arrendar a casa dela. Só lhe perguntei se era isso que queria. A minha mãe tem tanta dificuldade em se dar com os outros. Com as minhas irmãs nunca mais falei, nem mesmo no natal. Brevemente, vou fazer 44 anos e não me acredito que a minha vida melhore.Já não aguento escutar conselhos de pessoas, que nada sabem, como por exemplo, a minha prima, que me fala da aceitação que temos que fazer na vida e que sozinhos estamos todos. A minha prima que regressa a casa da mãe do pai, das irmãs, que tem o coração cheio de família. Só quem passou o natal sozinho tem o direito de me falar em aceitação. Só quem passou todos os sábados à noite sozinhos, poderá falar de aceitar o que quer que seja. Brevemente faço anos, mais um aniversário sozinha, a recordar-me em que me transformei, um desempenho de um papel, que trabalha dozes horas para tirar pouco mais do que o salário mínimo.  Hoje, foi muito difícil sair da cama, mais difícil se torna o passar do dia e o fingir que vivo em harmonia e sucesso. Vivo em paz comigo, isso sim. Tenho a certeza que faço sempre o meu melhor, mas, já duvidei, basta escutar a sociedade, perceber os dedos apontados e as tentativas de me responsabilizar por tudo. A sociedade perde-se num fingir que tudo está bem vs um carpir do maior drama. Sim, sei que existem vidas piores, em maior sofrimento, estou bem atenta a estas. Lamento que o mundo seja deste modo, oco, vazio, ignorante, imbecil. Nem sei mais o que escrevo, só queria deixar de sentir. Não consigo chegar a ninguém e ninguém repara que eu existo. Sou um instrumento, algo que usam para obter um maior bem estar, mas não existo enquanto pessoa. Consegui estar quatro dias sem comer porcaria e depois, mesmo sem qualquer apetite, obriguei-me a comer. Já percebi que já nem como como compensação, mas como punição. Faço de mim gorda, pois não mereço ser de um outro modo. Estranha esta cabeça imbecil. A morte para mim!

01
Fev18

Para hoje, ou já amanhã, a escolha da morte de quem sou

Bárbara

solidão.png

Estava a ouvir uma mãe a falar ao telemóvel com a sua filha adolescente, isso despertou em mim um conjunto de questões filosóficas e saudosas sobre os afetos e a sua ausência em cada dia em que vivo. A forma como deitavam conversa fora, num terceiro telefonema, num prazo curto, gastando o tempo, simplesmente, para mostrarem que estavam lá. O estômago começou a embrulhar-se, o peito esmagou num nó da garganta e senti-me ainda mais vazia, mais do que sou. Resultou num confronto de ninguém que tenho, apenas ninguém. Acordo sem ninguém, vivo sem ninguém e adormeço numa cama, apenas preenchida por um pequeno corpo de calor, que é o meu cão. Ser uma "sem família" é o que me calha, a chegar aos 44 anos. Todos os dias, espero ansiosamente pela morte, repito essa frase inumeras vezes, na expetativa que tudo acabe. Não encaixo neste mundo, nunca me senti parte dele. Um mundo de faz de conta, onde temos que fingir que ninguém é torturado, ninguém morre de fome... Sinto-me cansada de frases positivistas, de falsos messias, de lições de moral com o rei na barriga, apenas quero a morte. Doce morte e o que quer que se encontre do lado de lá. Conto os dias, com traços na parede, peço com fé, que seja o meu último inspirar. Já não suporto as pessoas, as suas vozes, os seus caprichos, os seus carpires. Já não suporto os dias e estou cansada de desempenhar este papel do nada que sou. Quando nos sentimos nada, quando os dias nada são, quando não tenho mesmo ninguém com quem partilhar o tudo e o nada que sou, apenas me quero no desaparecimento. Sem grandes escândalos, sem grandes alertas, como numa queda de pétalas de uma flor campestre, em que a própria estaçao explica a sua morte. Como se num amanhã, muito breve, justificasse esta ida e não me interessa mais nada... Para hoje, ou já amanhã, a escolha da morte de quem sou.

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